quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

José Maurício Nunes Garcia - ou, Nosso Hino Nacional existe por causa de um neto de escravos


Nascido e criado no Rio de Janeiro, José Maurício Nunes Garcia foi o maior compositor brasileiro no período de passagem do Brasil Colônia para o Império. É considerado por muitos o mais instruído e polivalente músico de sua época, no Brasil. Além de ser citado como um virtuose do órgão e do cravo. Viveu de setembro de 1767 a abril de 1830.


Era mulato, pobre, neto de escravos. Ficou órfão de pai ainda aos seis anos de idade e foi criado com dificuldade pela mãe e pela tia. Então como conseguiu tamanha instrução nestas condições? Esforço. Esforço de sua família que, percebendo uma grande facilidade musical no menino, trabalhou duro para conseguir pagar aulas com o renomado professor e compositor mineiro Salvador José de Almeida Faria. Esforço dele próprio, que passava até oito horas por dia estudando música. E todo este esforço deu resultado.


Depois das aulas com Salvador José, a única forma de continuar seus estudos culturais e de colocar em prática seus conhecimentos musicais era estudar na igreja. Religioso que sempre foi, José Maurício entrou para o seminário e em 1792 foi ordenado padre. Seis anos depois, como reconhecimento de sua competência musical, foi nomeado Mestre de Capela da Catedral da Sé do Rio de Janeiro. Este era, sem dúvida, o mais alto posto musical no Brasil Colônia.


Ali, José Maurício compôs a maioria de suas peças sacras (que são quase 240 catalogadas, além de muitas outras perdidas) e pôde praticar seu estilo de composição. Nesta época ele precisou ser muito versátil, pois as condições de trabalho musical não eram as melhores. Faltavam músicos experientes e instrumentos disponíveis na Catedral. Por causa disto, é comum encontrar nas peças deste período acompanhamentos reduzidos para órgão ou cravo, apenas violinos fazendo as partes das cordas ou ainda apenas as madeiras (flautas e oboés, principalmente) representando os sopros. Tinha que trabalhar com o que tinha.


Em 1808 tudo mudou. A corte portuguesa chegou ao Rio de Janeiro e Dom João VI trouxe com ele a Biblioteca Musical da Casa de Bragança, além de muitos músicos profissionais e instrumentos de qualidade. José Maurício, que foi nomeado Mestre da Capela Real, teve então acesso ao acervo de partituras de mestres europeus, como Vivaldi, Haydn e Mozart. Pela obra deste último José Maurício se apaixonou e passou a estudar o estilo de composição do prodígio de Salzburg. Nota-se claramente a influência da linguagem de Mozart nas obras do padre brasileiro após 1810.


Sua carreira começou a decair depois da chegada do compositor português Marcos Portugal ao Brasil. Este trouxe consigo as técnicas da ópera italiana que estava em voga na Europa, além de muita bagagem de música secular, preferida pela corte, fazendo com que a obra mais clássica e sacra de José Maurício deixasse de ser tão apreciada. Marcos Portugal tomou seu lugar e José Maurício passou a trabalhar esporadicamente, dando aulas particulares, enquanto recebia uma pensão da corte. Mas não ficou para trás em importância. Entre seus alunos particulares estavam Dom Pedro I e Francisco Manuel da Silva, que escreveu a música do Hino Nacional. Ou seja, sem ele, talvez tivéssemos outro hino.


Backstage Notes

Há 10 anos, eu cantava no Collegium Musicum de São Paulo, sob a regência do meu professor, o maestro Abel Rocha. Passamos um ano fazendo uma “dobradinha de réquiens”, executando concertos ora do Requiem do Mozart, ora do Requiem do José Maurício. Pra quem já ouviu os dois, sabe da influência que o primeiro tem no segundo. Há quem diga que o brasileiro plagiou muitas das partes da composição do austríaco. Em alguns momentos, parece mesmo.


Além do tom ser o mesmo, algumas das sequências harmônicas são idênticas. Várias construções melódicas remetem à peça do Mozart e o encadeamento das vozes do coro muitas vezes podem confundir sobre qual Requiem você está estudando.


Tanto que, durante os ensaios do Collegium, eu e uns companheiros do naipe dos baixos brincávamos com isto. Durante os quatro primeiros compassos do Dies Irae costumávamos trocar a peça do Mozart com a do José Maurício pra ver se alguém notava. Raramente notava. No concerto fazíamos direitinho, pra não levar as famosas broncas do Abel.


Mais um.


No mesmo período eu regi, na faculdade, uma das peças de José Maurício: Judas Mercator Pessimus, um moteto em três partes, a cinco vozes. Sempre achei muito melodioso, de fácil condução harmônica (principalmente no primeiro e terceiro “movimentos”) e com uma fuga bem construída, apesar da simplicidade (no segundo).


Agora, 10 anos depois, tive a oportunidade de reler a peça com o Grupo Vocal Piacere, um dos coros que rejo, já que nos dedicamos ao repertório sacro no ano de 2013. Visitem a página sobre meus trabalhos e cliquem sobre a foto do Piacere para me ouvir regendo a primeira parte deste moteto. Se quiser acompanhar na partitura, clique aqui.

Até o próximo post.

2 comentários:

  1. Uau, não conhecia esse histórico do Padre José Maurício. Mérito merecido sem dúvida.
    Já ouvi o Judas Mercator Pessimus. Ficou boa mesmo! Parabéns

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    1. Thanx. Perto dos europeus mais famosos de sua época, José Maurício fica bem pra trás. Mas comparado aos compositores brasileiros pré século XX, ele era ícone. Grande melodista.

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